O Perigo do Evangelho como uma Apropriação Cultural
Comentário baseado no livro de Gálatas 1.6-9
Anderson Vicente Gazzi
07/03/2025

"Estou admirado de que tão depressa estejais passando daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro; mas há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo do céu vos pregasse um evangelho diferente do que já vos pregamos, seja anátema. Como já dissemos, agora de novo também digo: Se alguém vos pregar um evangelho diferente do que já recebestes, seja anátema." (Gálatas 1.6-9)
Introdução
O Evangelho de Cristo é transcultural, eterno e imutável. No entanto, ao longo da história, diversas culturas tentaram distorcê-lo, adaptando-o para atender a interesses políticos, sociais ou ideológicos. Essa apropriação cultural do Evangelho corrompe sua essência e leva à idolatria de valores humanos em detrimento da verdade de Deus.
Neste breve comentário, veremos três perigos principais da apropriação cultural do Evangelho, examinando suas consequências e como devemos combatê-las.
1. A Distorção do Evangelho para Servir a Interesses Humanos
"Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo." (Colossenses 2.8)
Muitas vezes, o Evangelho é modificado para se encaixar em filosofias humanas e ideologias culturais. Isso pode ocorrer de diversas formas:
O evangelho da prosperidade, que reduz a fé a um meio de ganho financeiro.
O evangelho do moralismo, que transforma a salvação em um sistema de méritos humanos.
O evangelho politizado, que subordina a mensagem de Cristo a agendas ideológicas.
Quando a cultura impõe sua visão sobre o Evangelho, a verdade bíblica é substituída por narrativas humanas. João Calvino alerta:
“O coração humano é uma fábrica de ídolos” (Institutas, I.11.8).
Isso mostra que a inclinação natural do homem é distorcer o Evangelho para moldá-lo à sua própria imagem, ao invés de se submeter à verdade divina.
Devemos examinar constantemente a mensagem que ouvimos e pregamos, certificando-nos de que ela é fiel às Escrituras. O Evangelho não precisa ser ajustado para ser relevante, pois a verdade de Cristo transcende todas as culturas.
2. A Idolatria Cultural como Substituta da Verdade de Cristo
"E ele os tomou das suas mãos, e trabalhou o ouro com um buril, e fez dele um bezerro de fundição. Então disseram: Estes são teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito. E Arão, vendo isto, edificou um altar diante dele; e apregoou Arão, e disse: Amanhã será festa ao Senhor. E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se a comer e a beber; depois levantou-se a folgar". (Êxodo 32:4-6)
A história do bezerro de ouro mostra como o povo de Israel tentou fundir a fé no Senhor com práticas culturais egípcias. Eles queriam adorar a Deus à sua própria maneira, mas acabaram corrompendo completamente a verdadeira adoração.
Hoje, isso acontece quando cristãos incorporam elementos culturais que contradizem a verdade bíblica:
Sincretismo religioso, misturando cristianismo com práticas pagãs.
Relativismo moral, justificando pecados conforme a cultura da época.
Nacionalismo extremo, onde a identidade cristã é reduzida a uma identidade política.
Martinho Lutero alertou contra essa tendência ao afirmar:
“O evangelho não deve ser mudado ou adaptado ao gosto das pessoas, mas as pessoas devem ser mudadas pelo evangelho.”
O cristão deve discernir entre valores culturais legítimos e aqueles que competem com a verdade de Cristo. Nossa identidade principal deve ser em Cristo, não em uma cultura específica.
3. O Chamado para Permanecer no Evangelho de Cristo
"E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12.2)
O verdadeiro evangelho não se curva às pressões culturais. Os cristãos são chamados a serem sal e luz, influenciando a cultura, e não sendo moldados por ela. Isso significa:
Defender a verdade do Evangelho sem adaptações.
Ser fiel às Escrituras, mesmo que isso vá contra as tendências culturais.
Buscar um discipulado profundo, que nos fortaleça contra falsas doutrinas.
John Piper reforça essa ideia ao dizer:
“A verdade de Deus não deve ser editada para torná-la mais palatável ao mundo.”
Cada cristão deve avaliar sua fé à luz das Escrituras e rejeitar qualquer influência cultural que distorça o evangelho. A Igreja deve ser firme em sua missão de proclamar a verdade de Cristo, sem comprometer sua mensagem para agradar o mundo.
Conclusão
O perigo da apropriação cultural do Evangelho é real e pode levar à sua corrupção. Como cristãos, devemos estar atentos para não permitir que tradições humanas, ideologias ou valores culturais se sobreponham à verdade revelada por Deus.
A única forma de garantir que permanecemos no verdadeiro Evangelho é nos ancorarmos na Palavra de Deus e na centralidade de Cristo. Sejamos vigilantes, fiéis e comprometidos em viver e proclamar o Evangelho genuíno, sem acréscimos nem distorções.
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